quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

AS PALAVRAS




As palavras apaixonam e apaixonam-nos.
Há as que nos repelem, que nos expulsam do discurso, há outras que de tão sedutoras, tecem teias sobre nós, enredando-nos no seu emaranhado.
As palavras curam, mas também ferem e até matam. Evocam sentimentos, momentos de felicidade ou não. Algumas são alegres e enfeitam-nos o caminho, outras perseguem-nos.
Há as que resistem a tudo, aos frios da tarde e aos estios de Verão.
Quando fugimos para defronte do papel e agora do visor do computador, evocamos imagens com elas, compomos retratos, construímos edifícios.
Se formos cândidos emprestamo-lhes candura.
Algumas são fáceis de proferir, outras difíceis de ler e outras apreciam-nos erradamente.
Fazem-nos esperar ansiosos, sem saber o quê, estortegando os dedos que estalam nas articulações, com outras meditamos e tornamo-nos belos.
Irei apenas deter-me nas que nos seduzem e apaixonam quando lemos um texto, um livro e ficamos caídinhos. Transpôem-nos para outros cenários, descodificam códigos antigos. Há prosas que são fiéis àquilo que sentimos e vemos.
As palavras representam aquilo que de humano nasce das coisas.
Algumas movem-se com uma intensidade de amor lírico quase nas memórias de uma profunda experiência sensual. Fazem-nos viajar.
A sua qualidade está na qualidade de quem as admira.
Movem-se, arrancam, são dramáticas ou simplesmente belas porque quem as lê lhes introduz essas características.
Pensar é um dos maiores prazeres da espécie humana, ler e escrever acompanham-no.
Algumas palavras beijam-nos, acariciam-nos, fazem-nos fixar no patamar do sentimento, no átrio de sensações indeléveis, outras ensinam-nos a falar, a ver, a desculpar.
Palavras azuis, palavras vermelhas ou amarelas, também as há verdes ou brancas, outras são pretas.
As conversas da avó, do pai, dos amigos, ensinam-nos linguagens novas, falam-nos ao ouvido, vêem connosco novas realidades.
São amigas e amantes. Espermatibilizam ambientes, trazem-nos sensações boas, livres.
Algumas até nos apetecem comer, são paisagens de esperança, dão-nos confiança, levam-nos ao fundo dos tempos, outras tocam-nos ao de leve, e precipitam-nos em afectos. Participam connosco nos problemas da vida.
Há as emproadas, cheias de embófia, importantes que só querem falar com importantes e também conhecemos as menos importantes e que só querem falar com as menos importantes, as que não têm importância nenhuma. Por vezes cruzam-se umas com as outras e dão-se atritos de amola faca, tesouras e navalhas.
E as que possuem a força do amor, não falando de amor, só o evocando, as que não querem possuir o próximo... essas entaramelam-se-me na língua.

3 comentários:

  1. Agora temos personagens que interagem também, esta é boa!...

    ResponderEliminar
  2. Saber brincar com as palavras é só para alguns, poucos, eleitos.
    Uma delícia, o texto. Os comentários? Que se cheguem à frente outros personagens.

    ResponderEliminar