Júlia gostava de se esconder quando era criança e fingir-se de cadáver. Sonhava ser artista de jazz nessa altura. Seu pai era um fã de Thelonius Monk e ela costumava ouvi-lo lá por casa.
Tinha casado com um rapaz um pouco solitário, mas esse facto não constituiria qualquer obstáculo se ultimamente não o sentisse tão afastado.
Seu pai dizia-lhe constantemente que uma pessoa não deveria esperar muito ou mesmo quase nada dos outros porque as pessoas são egoístas. Júlia sempre desconfiou dessas ideias de seu pai, embora ultimamente ele acrescentasse ainda que o Rousseau, o Jean-Jacques tinha enganado todo o mundo, não, o Homem não era bom e corrompido pela sociedade, corrompia isso sim, a sociedade. Discutiam muito acerca do tema.
Sentia-se uma mulher nova ainda, mas quando parava para pensar, costumava fazer isso mais ao sábado à tarde, a ouvir música e trabalhando em tarefas da casa que se acumulavam ao longo da semana, pensava que se calhar o seu pai tinha razão. Ela sempre o contestou nessa matéria, mas às vezes apetecia dar-lhe razão.
Tinha estudado, fez o antigo 7º ano do liceu mais serviço cívico, um ano mais antes de entrar para a Faculdade. Tinha sido uma aluna aplicada.
Começou a trabalhar ainda nova porque gostava de ser independente financeiramente e não por necessidade dos progenitores. O tio, profissional de seguros, tinha-lhe conseguido um lugar na Companhia onde trabalhava. Fez uns testes de cultura geral que se lembre, mais umas provas e entrou como administrativa para a Companhia. Gostava muito do que fazia, tinha um bom relacionamento com os colegas, mas um dia achou que devia continuar a estudar, tirar um curso superior e matriculou-se no curso de Germânicas na Faculdade de Letras. Frequentou até ao 2º ano, mas viu-se obrigada a desistir. Estava grávida de 6 meses e o cansaço era uma realidade.
Pensou que um dia voltaria e acabaria o curso. Foi adiando, adiando, até hoje.
Continuava a ser profissional de seguros, a Companhia onde trabalhava inicialmente sofreu uma fusão e tinha passado por um período difícil de adaptação aos novos métodos de trabalho.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
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