Julia tinha sonhado em tempos que Cândido a enganava, mas nunca tivera coragem para lhe contar esse sonho, mas sempre acabava por achar que não passava dum sonho, que o seu marido era demasiado tímido para ter conseguido chegar até uma mulher, se tal acontecesse, era preciso antes haver uma enorme transformação no seu Cândido. Ele era irrepreensível nesse aspecto.
Pensou sempre assim até ao dia em que o seu marido tímido lhe disse que ia assistir a um jogo em Barcelos.
Desde a infância no Minho, esta herança acompanhava-o.
Nesse dia, Júlia ficou com a pulga atrás da orelha. Agora em Barcelos?
Mas continuou a lavar a louça e o pensamento afastou-se. Ela até o considerava um pouco indefeso e triste, embora de vez em quando gostasse de dizer as suas piadas, o olhar não enganava, era uma espécie de Amália no masculino dissera-lhe uma vez uma amiga do peito.
Porquê? lembra-se de ter perguntado, ao que a amiga lhe respondeu: "para mim tem olhos de rã batida, sempre com lágrimas invisíveis e esta gente assim está sempre a pedir alguma coisa e quando pedem muito também acabam por receber".
Júlia calou-se e afastou-se pensativa.
O seu casamento não tinha passado propriamente pela fase da "glasnot", mas ia-se mantendo.
Deu por si, parada no umbral da porta, com aquele corpo que parecia feito à mão, como em tempos dizia seu pai, reflectido no espelho da consola a reflectir sobre a mulher e as suas passagens secretas.
Sempre ouviu dizer que as mulheres tinham muitos alçapões, mas começava a pensar que os homens também os tinham e ela pouco sabia do que ia em muitas ocasiões,na cabeça e sentir,do seu marido, afinal nunca o tinha visto com olhos de rã. Julgava saber tudo, mas ao pensar nisso mais a sério, verificava que cada pessoa era mais que uma pessoa e algumas eram mesmo demasiadas pessoas.
E se o Cândido, o seu marido, pai dos seus filhos, tivesse outra?
Decidiu que o melhor era não voltar a colocar estas interrogações porque não a levavam a nada e também nem sabia porque diacho lhe ocorreram, donde vinham?
Ai, é verdade o "leit motiv", tinha sido o jogo em Barcelos.
quinta-feira, 11 de março de 2010
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
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Júlia gostava de se esconder quando era criança e fingir-se de cadáver. Sonhava ser artista de jazz nessa altura. Seu pai era um fã de Thelonius Monk e ela costumava ouvi-lo lá por casa.
Tinha casado com um rapaz um pouco solitário, mas esse facto não constituiria qualquer obstáculo se ultimamente não o sentisse tão afastado.
Seu pai dizia-lhe constantemente que uma pessoa não deveria esperar muito ou mesmo quase nada dos outros porque as pessoas são egoístas. Júlia sempre desconfiou dessas ideias de seu pai, embora ultimamente ele acrescentasse ainda que o Rousseau, o Jean-Jacques tinha enganado todo o mundo, não, o Homem não era bom e corrompido pela sociedade, corrompia isso sim, a sociedade. Discutiam muito acerca do tema.
Sentia-se uma mulher nova ainda, mas quando parava para pensar, costumava fazer isso mais ao sábado à tarde, a ouvir música e trabalhando em tarefas da casa que se acumulavam ao longo da semana, pensava que se calhar o seu pai tinha razão. Ela sempre o contestou nessa matéria, mas às vezes apetecia dar-lhe razão.
Tinha estudado, fez o antigo 7º ano do liceu mais serviço cívico, um ano mais antes de entrar para a Faculdade. Tinha sido uma aluna aplicada.
Começou a trabalhar ainda nova porque gostava de ser independente financeiramente e não por necessidade dos progenitores. O tio, profissional de seguros, tinha-lhe conseguido um lugar na Companhia onde trabalhava. Fez uns testes de cultura geral que se lembre, mais umas provas e entrou como administrativa para a Companhia. Gostava muito do que fazia, tinha um bom relacionamento com os colegas, mas um dia achou que devia continuar a estudar, tirar um curso superior e matriculou-se no curso de Germânicas na Faculdade de Letras. Frequentou até ao 2º ano, mas viu-se obrigada a desistir. Estava grávida de 6 meses e o cansaço era uma realidade.
Pensou que um dia voltaria e acabaria o curso. Foi adiando, adiando, até hoje.
Continuava a ser profissional de seguros, a Companhia onde trabalhava inicialmente sofreu uma fusão e tinha passado por um período difícil de adaptação aos novos métodos de trabalho.
Tinha casado com um rapaz um pouco solitário, mas esse facto não constituiria qualquer obstáculo se ultimamente não o sentisse tão afastado.
Seu pai dizia-lhe constantemente que uma pessoa não deveria esperar muito ou mesmo quase nada dos outros porque as pessoas são egoístas. Júlia sempre desconfiou dessas ideias de seu pai, embora ultimamente ele acrescentasse ainda que o Rousseau, o Jean-Jacques tinha enganado todo o mundo, não, o Homem não era bom e corrompido pela sociedade, corrompia isso sim, a sociedade. Discutiam muito acerca do tema.
Sentia-se uma mulher nova ainda, mas quando parava para pensar, costumava fazer isso mais ao sábado à tarde, a ouvir música e trabalhando em tarefas da casa que se acumulavam ao longo da semana, pensava que se calhar o seu pai tinha razão. Ela sempre o contestou nessa matéria, mas às vezes apetecia dar-lhe razão.
Tinha estudado, fez o antigo 7º ano do liceu mais serviço cívico, um ano mais antes de entrar para a Faculdade. Tinha sido uma aluna aplicada.
Começou a trabalhar ainda nova porque gostava de ser independente financeiramente e não por necessidade dos progenitores. O tio, profissional de seguros, tinha-lhe conseguido um lugar na Companhia onde trabalhava. Fez uns testes de cultura geral que se lembre, mais umas provas e entrou como administrativa para a Companhia. Gostava muito do que fazia, tinha um bom relacionamento com os colegas, mas um dia achou que devia continuar a estudar, tirar um curso superior e matriculou-se no curso de Germânicas na Faculdade de Letras. Frequentou até ao 2º ano, mas viu-se obrigada a desistir. Estava grávida de 6 meses e o cansaço era uma realidade.
Pensou que um dia voltaria e acabaria o curso. Foi adiando, adiando, até hoje.
Continuava a ser profissional de seguros, a Companhia onde trabalhava inicialmente sofreu uma fusão e tinha passado por um período difícil de adaptação aos novos métodos de trabalho.
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By Jorge Sequeira
Os pequenos poderes, sim. Desde o porteiro ao administrador. E parecia que quanto mais mesquinho fosse esse poder mais frequente era o seu exercício. Tinha visto, muitas vezes,exercerem esses pequeninos actos de "quero, posso e mando". E com o público era pior. Qualquer um tinha prazer em acordar do seu trabalho atrofiante e fazer o utente pagar as suas frustrações. Mudar mentalidades era preciso, mas ele sabia que só quando desaparecessem os da sua geração se poderia falar de mudanças. Quase se poderia dizer que tinham inscrito no ADN tal comportamento.
Não sentia nenhum prazer no trabalho que tinha. Nem sequer tinha arranjado amigos do trabalho. Conhecidos sim, mas amigos ainda eram os da infância. Poucos mas bons. Muito poucos para dizer a verdade. E já se encontravam para beber uns copos. Júlia não gostava desses encontros mensais. Regressava sempre mais bêbado do que queria e gostava, mas se não acompanhasse o ritmo dos outros era gozado e ele não queria isso.
Até porque o álcool lhe sabia cada vez melhor. Não cerveja, mas gin. Em casa, normalmente. Era capaz de ficar noite fora a beber gin tónico. Não perdia a noção do que fazia, até lhe saíam mais facilmente os textos que gostava de meter na net. Acreditava que Júlia não se apercebia. Pelo menos nunca lhe tinha dito nada. Quando se ia deitar ela já dormia ou fingia dormir.
Os pequenos poderes, sim. Desde o porteiro ao administrador. E parecia que quanto mais mesquinho fosse esse poder mais frequente era o seu exercício. Tinha visto, muitas vezes,exercerem esses pequeninos actos de "quero, posso e mando". E com o público era pior. Qualquer um tinha prazer em acordar do seu trabalho atrofiante e fazer o utente pagar as suas frustrações. Mudar mentalidades era preciso, mas ele sabia que só quando desaparecessem os da sua geração se poderia falar de mudanças. Quase se poderia dizer que tinham inscrito no ADN tal comportamento.
Não sentia nenhum prazer no trabalho que tinha. Nem sequer tinha arranjado amigos do trabalho. Conhecidos sim, mas amigos ainda eram os da infância. Poucos mas bons. Muito poucos para dizer a verdade. E já se encontravam para beber uns copos. Júlia não gostava desses encontros mensais. Regressava sempre mais bêbado do que queria e gostava, mas se não acompanhasse o ritmo dos outros era gozado e ele não queria isso.
Até porque o álcool lhe sabia cada vez melhor. Não cerveja, mas gin. Em casa, normalmente. Era capaz de ficar noite fora a beber gin tónico. Não perdia a noção do que fazia, até lhe saíam mais facilmente os textos que gostava de meter na net. Acreditava que Júlia não se apercebia. Pelo menos nunca lhe tinha dito nada. Quando se ia deitar ela já dormia ou fingia dormir.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
PAÍS PEQUENINO, PEQUENINO, PEQUENINO

O Sr. Almunia acha-se um grande analista europeu e pobre dele, só consegue analisar o seu próprio cargo e fazer a sua manutenção.
A oposição tem problemas de identidade.
O Presidente da República não quer dizer que não fez tudo antes de deixar cair o governo.
O Sr. Mário Crespo, admirador do jornalismo de Manuela Moura e ressaibiado, sente o terreno a fugir-lhe dos pés, lembrando-se quando foi despedido da RTP e quer arranjar um bode expiatório, para isso escolheu o Primeiro Ministro & outros.
As bolsas caem.
Os investidores não investem.
As agências de rating, como prostitutas de luxo, para serem faladas querem colocar Portugal em saldo.
Os jovens estudantes vieram para a rua.
Parece que tudo "enmalucou" de vez, ficou doidinho da cabeça.
O Sr. da Madeira porque estamos em tempo de Carnaval faz o seu número preferido, o de estar ao mesmo tempo completamente independente do rectângulo do continente, estando completamente dependente dos dinheiros que daqui vão. É uma acrobata de mancheia. Veio ao circo como ele diz, actuar contribuindo para o déficit nacional, descabelando mais uma vez, a instável estabilidade nacional.
Os governos e este por ser o último, e só por isso, estão com dificuldades em governar. Com maioria faziam o que queriam, em minoria têm dificuldades, porque não têm dinheiro, nem coragem/possibilidades de ir buscar a quem tem, nem experiência democrática.
Chegou tudo a um ponto de quase ruptura, foi só gastar, gastar, quer nos governos do PSD como nos do PS, e agora que estão sobreendividados e já não têm crédito a não ser que vendam também os dedos, não sabem o que fazer.
Saber, sabem: tirar mais ao povo, só que este já não tem.
Antes era fácil governar, quando não havia dinheiro pedia-se e havia um banco (= União Europeia) que só queria emprestar para depois ganhar nos juros e não só, e o povo pagava. Agora não podem pedir mais.
Governar é difícil, governar-se é muito mais fácil.
Não temos um PR à altura nem um PM, mas também não temos um povo atento, correcto e que saiba defender os seus interesses, prevenir situações. Tal povo, tais governos e governantes.
A nossa fase é de um estendal de todas as misérias e privações, de todas as inquietações e frustrações para a maioria e do "bem bom" para uma minoria, à moda da América Latina.
Às vezes, sinto-me sufocar alternadamente de raiva e de impotência.
Este é um país pequeno, uma gente pequena e tem uma alma pequena.
Não me apetece enrolar numa sessão de revivalismo, por isso não me apetece dizer que isto está parecido com o antigamente, dar opiniões em câmara rápida, não me apetece, porque é perigoso.
Os medíocres nunca estão sós e a mediocridade é uma pátria. Os medíocres arrastam medíocres. É o que eu vejo nesta tarde de chuva com os jornalistas a trajificar mais a tragédia, mais uma, deslocou-se a imprensa do Haiti para o Parlamento português, com o título "Governo cai hoje ou espera por amanhã"?
AS PALAVRAS
As palavras apaixonam e apaixonam-nos.
Há as que nos repelem, que nos expulsam do discurso, há outras que de tão sedutoras, tecem teias sobre nós, enredando-nos no seu emaranhado.
As palavras curam, mas também ferem e até matam. Evocam sentimentos, momentos de felicidade ou não. Algumas são alegres e enfeitam-nos o caminho, outras perseguem-nos.
Há as que resistem a tudo, aos frios da tarde e aos estios de Verão.
Quando fugimos para defronte do papel e agora do visor do computador, evocamos imagens com elas, compomos retratos, construímos edifícios.
Se formos cândidos emprestamo-lhes candura.
Algumas são fáceis de proferir, outras difíceis de ler e outras apreciam-nos erradamente.
Fazem-nos esperar ansiosos, sem saber o quê, estortegando os dedos que estalam nas articulações, com outras meditamos e tornamo-nos belos.
Irei apenas deter-me nas que nos seduzem e apaixonam quando lemos um texto, um livro e ficamos caídinhos. Transpôem-nos para outros cenários, descodificam códigos antigos. Há prosas que são fiéis àquilo que sentimos e vemos.
As palavras representam aquilo que de humano nasce das coisas.
Algumas movem-se com uma intensidade de amor lírico quase nas memórias de uma profunda experiência sensual. Fazem-nos viajar.
A sua qualidade está na qualidade de quem as admira.
Movem-se, arrancam, são dramáticas ou simplesmente belas porque quem as lê lhes introduz essas características.
Pensar é um dos maiores prazeres da espécie humana, ler e escrever acompanham-no.
Algumas palavras beijam-nos, acariciam-nos, fazem-nos fixar no patamar do sentimento, no átrio de sensações indeléveis, outras ensinam-nos a falar, a ver, a desculpar.
Palavras azuis, palavras vermelhas ou amarelas, também as há verdes ou brancas, outras são pretas.
As conversas da avó, do pai, dos amigos, ensinam-nos linguagens novas, falam-nos ao ouvido, vêem connosco novas realidades.
São amigas e amantes. Espermatibilizam ambientes, trazem-nos sensações boas, livres.
Algumas até nos apetecem comer, são paisagens de esperança, dão-nos confiança, levam-nos ao fundo dos tempos, outras tocam-nos ao de leve, e precipitam-nos em afectos. Participam connosco nos problemas da vida.
Há as emproadas, cheias de embófia, importantes que só querem falar com importantes e também conhecemos as menos importantes e que só querem falar com as menos importantes, as que não têm importância nenhuma. Por vezes cruzam-se umas com as outras e dão-se atritos de amola faca, tesouras e navalhas.
E as que possuem a força do amor, não falando de amor, só o evocando, as que não querem possuir o próximo... essas entaramelam-se-me na língua.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
/...
Quim, o filho mais velho, tinha acabado o 12º ano se não tivesse ficado com uma cadeira para fazer. Tempo não lhe faltava naquele ano lectivo. Uma parte do dia gastava-a no computador e a ver filmes na TV "que sacava da Net", como ele dizia.
Dormia muito e sentia-se um pouco ansioso com o futuro. "E se não entrasse de novo para a Faculdade", pensava. A sua ideia era tirar engenharia informática mas e depois?
Habituou-se a ouvir o pai queixar-se do local de trabalho e do que auferia mensalmente, também ele tinha estudado com grande sacrifício a que ninguém dava valor, dizia. Tinha sido trabalhador-estudante. Outras épocas!
Após ter acabado o curso de direito e a empresa onde se encontrava a trabalhar à época, não o ter reclassificado, desgostoso, entrou para a função pública "maldita a hora" dizia.
Tinha casado há pouco, queria constituir família e precisava de começar uma carreira aproveitando a licenciatura que tinha adquirido, senão não tinha valido para nada tanto esforço.
Descobriu mais tarde que quando não se cumprem etapas, torna-se difícil recuperar.
Entrou como técnico superior de 2ª e foi subindo até assessor, nem director de serviços era, "claro, não pertencia a nenhum partido político", dizia, ao mesmo tempo que se sentia satisfeito consigo mesmo por assim ser."Não se vendia".
Agora até estava satisfeito por não ter sido director de serviços, achava-os uns badamecos, sim "uns badamecositos, faziam tudo que o chefe queria para prejudicar os colegas, então nas classificações, era demais!"
Se ocupasse esse cargo agora o mais certo era demitir-se da função "não entraria nessas jogadas".
Desconhecia completamente que desde que uma pessoa ocupa um lugar de chefia e quanto mais alto ele for, director de serviços não, mas, por exemplo, presidente ou administrador de alguma instituição pública ou privada, passa a exercer o poder e a partir daí, já não pensa nem actua como os restantes. Valores e princípios alteram-se. O poder corrompe sim, e os pequenos poderes mais ainda.
Dormia muito e sentia-se um pouco ansioso com o futuro. "E se não entrasse de novo para a Faculdade", pensava. A sua ideia era tirar engenharia informática mas e depois?
Habituou-se a ouvir o pai queixar-se do local de trabalho e do que auferia mensalmente, também ele tinha estudado com grande sacrifício a que ninguém dava valor, dizia. Tinha sido trabalhador-estudante. Outras épocas!
Após ter acabado o curso de direito e a empresa onde se encontrava a trabalhar à época, não o ter reclassificado, desgostoso, entrou para a função pública "maldita a hora" dizia.
Tinha casado há pouco, queria constituir família e precisava de começar uma carreira aproveitando a licenciatura que tinha adquirido, senão não tinha valido para nada tanto esforço.
Descobriu mais tarde que quando não se cumprem etapas, torna-se difícil recuperar.
Entrou como técnico superior de 2ª e foi subindo até assessor, nem director de serviços era, "claro, não pertencia a nenhum partido político", dizia, ao mesmo tempo que se sentia satisfeito consigo mesmo por assim ser."Não se vendia".
Agora até estava satisfeito por não ter sido director de serviços, achava-os uns badamecos, sim "uns badamecositos, faziam tudo que o chefe queria para prejudicar os colegas, então nas classificações, era demais!"
Se ocupasse esse cargo agora o mais certo era demitir-se da função "não entraria nessas jogadas".
Desconhecia completamente que desde que uma pessoa ocupa um lugar de chefia e quanto mais alto ele for, director de serviços não, mas, por exemplo, presidente ou administrador de alguma instituição pública ou privada, passa a exercer o poder e a partir daí, já não pensa nem actua como os restantes. Valores e princípios alteram-se. O poder corrompe sim, e os pequenos poderes mais ainda.
domingo, 31 de janeiro de 2010
continuação by Jorge Sequeira
As salas de cinema são boas para uma pessoa pensar. Se nos desligarmos do filme, o silêncio e arrumação reinantes são excelentes para a meditação.
Júlia estava, aparentemente, interessada no filme. Pelo canto do olho via-a fixa no ecrã, a respiração certa, a mão a agarrar o braço da cadeira. Há muito que tínhamos deixado de dar as mãos. Sentia o ombro dela e era reconfortante. Ajudava-me a concentrar nos meus pensamentos. E a frase da manhã que não me saía da cabeça:"A História é uma velhota que se repete sem cessar". Que história? A universal? A minha? A verdade é que a geral não me interessava para nada. Ultimamente andava centrado em mim e na minha vida. No meu futuro? Talvez...Seria com ou sem a Júlia? Manteria aquele emprego frustrante? Estava na idade das decisões. Não me queria arriscar a descobrir que a minha vida tinha sido de todo inútil. Que era feito dos sonhos da juventude? Quantos tinham sido concretizados? A Júlia tinha sido uma promessa que depressa ficara adiada. Por culpa dela ou minha, tanto fazia. O emprego tinha sido obra minha. A única porcaria que tinha conseguido. O livro, tão pensado e nunca começado? Uma árvore plantada? Nada! Que sensação de vazio tão grande. Sem pensar, agarrei na mão ao meu lado. Júlia não reagiu, deixou-a ficar esquecida.
Júlia estava, aparentemente, interessada no filme. Pelo canto do olho via-a fixa no ecrã, a respiração certa, a mão a agarrar o braço da cadeira. Há muito que tínhamos deixado de dar as mãos. Sentia o ombro dela e era reconfortante. Ajudava-me a concentrar nos meus pensamentos. E a frase da manhã que não me saía da cabeça:"A História é uma velhota que se repete sem cessar". Que história? A universal? A minha? A verdade é que a geral não me interessava para nada. Ultimamente andava centrado em mim e na minha vida. No meu futuro? Talvez...Seria com ou sem a Júlia? Manteria aquele emprego frustrante? Estava na idade das decisões. Não me queria arriscar a descobrir que a minha vida tinha sido de todo inútil. Que era feito dos sonhos da juventude? Quantos tinham sido concretizados? A Júlia tinha sido uma promessa que depressa ficara adiada. Por culpa dela ou minha, tanto fazia. O emprego tinha sido obra minha. A única porcaria que tinha conseguido. O livro, tão pensado e nunca começado? Uma árvore plantada? Nada! Que sensação de vazio tão grande. Sem pensar, agarrei na mão ao meu lado. Júlia não reagiu, deixou-a ficar esquecida.
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