domingo, 31 de janeiro de 2010

continuação by Jorge Sequeira

As salas de cinema são boas para uma pessoa pensar. Se nos desligarmos do filme, o silêncio e arrumação reinantes são excelentes para a meditação.

Júlia estava, aparentemente, interessada no filme. Pelo canto do olho via-a fixa no ecrã, a respiração certa, a mão a agarrar o braço da cadeira. Há muito que tínhamos deixado de dar as mãos. Sentia o ombro dela e era reconfortante. Ajudava-me a concentrar nos meus pensamentos. E a frase da manhã que não me saía da cabeça:"A História é uma velhota que se repete sem cessar". Que história? A universal? A minha? A verdade é que a geral não me interessava para nada. Ultimamente andava centrado em mim e na minha vida. No meu futuro? Talvez...Seria com ou sem a Júlia? Manteria aquele emprego frustrante? Estava na idade das decisões. Não me queria arriscar a descobrir que a minha vida tinha sido de todo inútil. Que era feito dos sonhos da juventude? Quantos tinham sido concretizados? A Júlia tinha sido uma promessa que depressa ficara adiada. Por culpa dela ou minha, tanto fazia. O emprego tinha sido obra minha. A única porcaria que tinha conseguido. O livro, tão pensado e nunca começado? Uma árvore plantada? Nada! Que sensação de vazio tão grande. Sem pensar, agarrei na mão ao meu lado. Júlia não reagiu, deixou-a ficar esquecida.

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